IFAREFA / IPAREPA / O ALVENAL


Dizem que, antigamente, as casas eram temporárias e de palha. Seguindo o calendário, que se faz desta forma:
 
Fa, Pa (Estrela) 1º mês, corresponde à Junho.
Fobere, Popere (Segundo), 2º mês, corresponde à Julho.
Fyaare, Pyakare (Terceiro), 3º mês, corresponde à Agosto.                                                                
Söre, Sure (Quarto), 4º mês, corresponde à Setembro.                                                                
Ninore (Quinto), 5º mês, corresponde à Outubro.                                                                                  
Maire (Sexto), 6º mês, corresponde à Novembro.
Sin (Chuva), 7º mês, corresponde à Dezembro.
Tore (Oitavo), 8º mês, corresponde à Janeiro.
Füre, Püre (Nono), 9º mês, corresponde à Fevereiro.
Fanre, Panre (Décimo), 10º mês, corresponde à Março
Fobe zaore, Pope zaore (Dois (meses) antes (do Ano Novo)), 11º mês, corresponde à Abril.
Miro zaore (Um (mês) antes (do Ano Novo)), 12º mês, corresponde à Maio.
 
Vemos que, durante o Fa, e seus cinco meses subordinados, as casas temporárias (fanamüü/banamüü) protegiam os povos do sertão do calor intenso, enquanto nos outros seis meses, subordinados de Sin, os telhados de palha protegem da água e frio dessa época, mantendo, em ambos os períodos, uma facilidade na mobilidade dos povos.
 
Nós Juká, porém, diferenciamo-nos por nossas muralhas de pedras (ifari/ipari 'morro de pedra (artificial)' ou ifarasi/iparasi 'pedra comprida'), construídas nos sopés de serras, onde os crânios dos inimigos ficavam em espeques (förökurire 'espinho grande, estaca') e o povo se assentava. Quem, porém, do nosso povo, introduziu esta técnica? Conto aqui o quemuitos nós de corda, marcando dias, meses e anos, marcam na história, soprada ao vento por um ancestral, que não conta seu nome de nascença ou de maior-idade, mas pede-nos para chamá-lo, na língua, de Alvenal (Ifarefa/Iparepa), ele conta-nos que é um ancestral que, por meio de sua história no mundo dos vivos (roro), e depois, no mundo dos mortos (nokeroba), adquiriu grande prestígio na nação Inhamum, e tornou-se uma figura de patamar lendário e real simultaneamente.
 
 
 
 

 
O CONTO DE IFAREFA: NASCIMENTO DAS PEDRAS
 
 Ifarefa começou sua vida de forma incomum, nascido de grandes dólmens (ifa ri ra 'mesa de pedra') que cercam o sertão nordestino. Seus pais eram um casal de idosos, que o encontraram sob o sol escaldante do meio-dia, fazendo com que imediatamente o resgatassem. Os idosos eram, conta-nos ele, Moukuriri (o esposo, 'corpo de garça') e Sösaresö (a esposa, 'filha da noite'), que viviam há meia légua dali, próximo a um riacho. O casal levou a criança e contaram para a aldeia toda como acharam ela, o que interessou rapidamente o pajé, que logo veio vê-la.
 
 O pajé, Fororoka-fa (coco de siriva), pediu ao casal para levar o bebê para sua cabana, donde fez pôs o fumo dentro da cabaça furada, deixando-se passar horas e horas, até que tanto ele tinha terminado, quanto a criança começara a chorar de fome. O pajé anunciou que essa criança era especial, que não podia dizer tudo, mas que garantia que a sobrevivência desse bebê era a chave para um futuro melhor para os Jokwoyu. Tal comentário deu a certeza aos dois idosos, que, apesar da avançada idade, viriam a criá-lo como seu próprio, entre seus 3 filhos, Fabozörü (Fogo do Coração), Kinyoori (Corpo de Arara) e Ikare (Arqueiro), e sua filha, Töyorore (Pedra Branca), nesta ordem, do mais velho à mais nova.
 
 Quando Ifarefa chegara ao seus 10 anos, seus pais adotivos, naquele mesmo ano, faleceram, deixando-no nos cuidados de seus irmãos adotivos, mas ele já percebera, há uns anos, que apenas Fabozörü e Töyorore cuidavam dele, enquanto Kinyoori se distanciava cada vez mais da família e aldeia, e Ikare o detestava, sendo o segundo mais novo, ele cresceu vendo seus pais dando grande atenção e afeto à um bebê que não era da família, o que lhe fez crescer rancoroso.


O CONTO DE IFAREFA: A CAÇA
 
 Chegando a data dos rituais de iniciação, iniciados dias após o Ano Novo, os jovens, agora de 15 anos, pernoitam incessantemente, aguentando o calor, as danças e corridas que os preparavam para a vida adulta. Ifarefa estava entre eles, e prosseguia os ritos de forma satisfatória, apesar de claramente exausto. Chegando os últimos dias do ritual, os jovens foram postos a caçar 1 animal que não fosse tabu de seu clã, eles teriam até o pôr do sol e erguer da lua daquele mesmo dia. Ifarefa pôs-se a correr em direção à mata, em busca de um firako (quati), quando fora interrompido por uma flecha que acertou em cheio a árvore na sua frente, e quase acertou sua cabeça, ele suspeitou de quem era, mas não parou de correr, até que avistou um quati mais adiante, correra e um alcançara, e rapida e astutamente, agarrou o animal e o pusera em sua frente. 
 
 No mesmo momento, mais uma flecha fora atirada na direção dele, acertando em cheio o firako, matando-o ali mesmo. O jovem correu de volta para a praça central da aldeia, trazendo o animal consigo nas costas, que o protegeu de várias outras flechas. Deixando-o em frente ao Organizador do Ritual (Föe e ro refa), Nonoka-fa (Fruto de Urucum), e rapidamente agradecendo à mata pela caça. O ancestral nos conta que, chegando em sua casa naquela noite, já tarde, Ikare não estava, e ele suspeita que, por ter matado um animal na mata sem permissão, passara a madrugada toda perdido na mata por conta da Fari (Caipora).
 
O CONTO DE IFAREFA: AS PEDRAS
 
 Num dia qualquer, descera rapidamente do rios mais ao norte, um grande povo chamado Naporá, caçadores de cabeça que buscavam alimento e residência à todo custo. A aldeia não tinha grandes proteções, salvo uma cerca de paus, que os Naporá, logo percebendo, puseram fogo em paus e atearam fogo na cerca, forçando o povo a fugir para as várzeas ao sudoeste, Ifarefa e seus irmãos e irmã sobreviveram, e fugiram com o resto do povo para esta direção. Ikare sugerira ao cacique Karire-fa (Grande Tamboreiro) que pegassem seus arcos o mais depressa possível e se preparassem para o próximo ataque dos Naporá, mas o cacique temia que, a falta de um território protegido traria grande desvantagem contra os grandes números do inimigo. Ifarefa estava conversando com Töyorore, quando a conversa chegara em como os pais deles o encontrara, ela contou que eles encontraram um pequeno bebê no meio do calor intenso, debaixo de pedras tão bem alinhadas, que pareciam uma mesa. Esse comentário, naquele momento, fez Ifarefa ter uma ideia, ele foi atrás do pajé para pedir-lhe que contacta-se a senhora da montanha (Ifararesö).
 
Quando o pajé acendera o tabaco e pusera debaixo da cabaça furada, Ifarefa abanou uma folha de palmeira que buscara para que a fumaça chegasse mais rápido. Foi aí que descera da montanha uma grande voz, imponente e feminina voz que perguntara: "à que me chamas?", disse a Senhora de Coronzó (Koronzaoraresö), Ifarefa ia suplicar, mas a Senhora logo comentou: "um filho de pedra chama-me? Tu és neto de todas as montanhas do mundo, diga-me o que necessitas.", rapidamente, Ifarefa explica a situação de seu povo. 
 
 Com tudo dito, ela desce em grande luz do céu em forma de mulher na terra, pintada de jenipapo com os motivos da rocha, ela se aproxima do cacique, junto a Ifarefa e ao pajé, explicando o que faria por eles: "meu neto pede-me ajuda, e darei, a pedra do meu ser vai reformar-se perfeitamente, para possam encaixar-se, uma por uma, em uma grande cerca, com altura e força de montanhas, chamarão de ifari.", e assim foi feito, grandes blocos retangulares de pedras, e ferramentas do mesmo material, foram distribuidas em abundância ao povo, e a Senhora partira naquele momento, deixando não um presente pronto, mas a oportunidade de sobrevivência da nação.
 
 Ikare, ao ver que seu plano fora ignorado, e novamente Ifarefa tomou a atenção para si próprio, abandonara seu povo, e foi até os Naporá, dizendo-lhes onde estavam se escondendo, traindo sua nação. Na outra manhã, os Naporá marcharam em direção de onde Ikare os havia guiado, mas encontraram uma montanha artificial, de blocos bem colocados entre si. Os Naporá e Ikare atiraram flechas e tentaram a mesma estratégia de atear fogo, mas viram que nada funcionava, e os Jokwoyu reagiam bravamente, atirando de volta e sofrendo nenhum dano. A vitória estava extremamente próxima, mas Ikare, vendo Ifarefa na ponta esquerda do forte, atirando com seu arco, mirou destramente nele, acertando em cheio em seu coração. Ele caiu, mas não antes de ver o sol nascer e seu povo vencer os Naporá, que fugiam de volta para a direção do norte de onde vieram, com seus números muito reduzidos.
 
Töyorore encontrara seu irmão morto no chão, e naquele mesmo dia, um funeral fora preparado para ele, o declarando ali como um herói (ro kurire) da nação, e dando-lhe o seu nome de Ifarefa (O Alvenal). Naquela mesma noite, os remanescentes dos Naporá e Ikare fugiram para um montanha mais ao norte, mas a montanha ouvira de seus atos, e não os deixou serem bem vindos, naquela noite, os guerreiros Naporá e o traidor sumiram da terra.
 
Conta-nos este ancestral que desde aí, seu povo começou a tradição de construção de grandes muralhas de pedra, aperfeiçoando cada vez mais as técnicas passadas pela Senhora da Montanha. Não sabemos mais o seu nome, mas sua contribuição está marcada na história do povo Juká.

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