Introdução do Blog, Mudanças sonoras da língua Juká e Dialetos do Juká



INTRODUÇÃO DO BLOG / TUU Ü AWARÜBA

Este é o blog do povo Juká, Jokwoyu ou Joquoyo. Somos um povo nativo do Sertão de Inhamuns, uma região localizada no Sudoeste do atual Estado do Ceará. Nossa liderança ancestral é o cacique Inhamum ou Anhamum (Inyamun, Anyamun), e nossa cacica atual é Yuapenu. Somos divididos em duas grandes metades, por conta das migrações de nosso povo para a região do Norte, criando assim os Kui Kezakae (Gaviões-caboclos) do leste (Ceará), e os Sibae (Araras) do oeste (Pará).

Atualmente estamos em processo de revitalização étnica, eu, Manye-fa Jokwoyu, trabalho com a língua de nossa nação, através do nomes de riachos e serras de nossas terras, por meio de muita comparação, pude averiguar a relação do Juká com outras línguas do Nordeste que compartilham de uma base lexical bororóide, como o Kariri que conhecemos, como os Dzubukuá, Kipeá, Sapuyá, Kamurú, Moriti, Payayá, Kixelô, Kariú, Isú e Tuxá, e os Pankararú-Proká, que divergem do Kariri, mas apresentam um léxico nativo de mesma base extremamente ancestral. O Juká, como intendo demonstrar pelos meus argumentos seguintes, não participa diretamente de nenhum desses dois, pois apresenta isoglossas próprias que caracterizam-no como uma rama própria dentro dessas línguas de base Bororóide. Note que digo Bororóide, pois acredito que seja errado dizer Boróro, visto que essas línguas descendem de um ancestral comum com ela, e não da língua moderna. Aqui segue, primeiro, o argumento das mudanças sonoras.



MUDANÇAS SONORAS DO JUKÁ


Explica-se aqui as mudanças sonoras que ocorreram na transição do Proto-Bororoide, o ancestral comum, para o Juká Antigo (o que veio muito antes da colonização) e o Juká (Aquele que foi documentado entre os séculos XVII, XVIII e XIX). As explicações serão dadas tanto na forma didática quanto na forma linguística.


Fonologia

1.1) /a/ > /a/ (á aberto de água) ou /e/ (ê de extra) (quando for tônico)

ex.: paro i ‘sucupira, faveira’ (Uchoa, 2005, p. 163) > faro i, felo i ‘sucupira, faveira’

Explicação: A palavra Faroibo, e sua variante Feloibo, surgem onde há um riacho chamado ‘Riacho das Favelas’, através desse nome, foi encontrado um cognato no Boróro que se diz paro i ‘sucupira’, que também possui o nome alternativo de ‘faveira’. Bo é a palavra nativa para ‘água’ e ‘rio’, o motivo dela não ter virado /f/ como em Fueriró será explicado.


1.2) /a/ > /ow/ (ôu como em sou), talvez venha de um */aw/ anterior

ex.: rakojereu ‘o que está de pé’ > roukuneere ‘tabuleiro (forma de relevo de 20 a 50 metros)’


2.1) /e/ se preserva; surge dialetalmente de /a/

ex 1.: paro i ‘sucupira, faveira’ (Uchoa, 2005, p. 163) > faro i, felo i ‘sucupira, faveira’

ex 2.: böerüreü ‘quente, calorento’ > föerüro (Fueriró) ‘Riacho das Pitombeiras’


2.2) /e/ pode virar /o/

ex.: -re 'sufixo de adjetivização' -ro 'sufixo de adjetivização' de föerüro (Fueriró) ‘Riacho das Pitombeiras’

 

3.1) /i/ (i igual o português) se preserva

ex.: i ‘árvore’ (paro i ‘árvore de sucupira’, Uchoa, 2005, p. 40)


4.1) /o/ (ô fechado de outro) se preserva

ex 1.: paro i ‘sucupira, faveira’ (Uchoa, 2005, p. 163) > faro i, felo i ‘sucupira, faveira’


4.2) /o/ pode virar /u/ (u de uma) ou continuar como /o/ (posição final)

ex 1.: rakojereü ‘o que está de pé’ > roukuneere ‘tabuleiro (forma de relevo de 20 a 50 metros)’

ex 2.: paro i ‘sucupira, faveira’ (Uchoa, 2005, p. 163) > faro i, felo i ‘sucupira, faveira’


/ʌ/ (som parecido com â com circunflexo, como âmago, é o ö do Boróro) > documentado como /u/ ou /a/ pelos portugueses

ex 1.: föe ‘coisa, gente, tempo, natureza’ de föerüro ‘quente (föe ‘coisa’ + ‘quente’ + -ro ‘adjetivizador’)

ex 2.: fae ‘coisa, gente, tempo, natureza’ do Riacho Faé


/u/ (ú de último) > /o/

ex.: kigudu ‘trapos’ > koro (koro < kyoro < kihoro < kigoro < kigodo < kigudu) ‘trapos’ de rösä koro ‘trapos de roupas’


/ɯ/ (u gutural, u pronunciado com a boca na posição de falar i) > /ɯ/ (Os portugueses escutaram como <i>, <u> ou <e>

ex.: böerüreü ‘quente, calorento’ > föerüro
 (Fueriró) ‘Riacho das Pitombeiras’


/k/ > /k/

ex 1.: zigö-hwa ‘imbuzeiro’ (Loukotka, 1932, p. 517) > sikö-wa ‘Riacho dos Imbuzeiros’

ex 2.: rakojereu ‘o que está de pé’ > roukuneere ‘tabuleiro (forma de relevo de 20 a 50 metros)’


/p/ e /b/ > /f/ (posição inicial)

ex 1.: paro i ‘sucupira, faveira’ (Uchoa, 2005, p. 163) > faro i, felo i ‘sucupira, faveira’

ex 2.: boerureu ‘quente, calorento’ > fueriro ‘Riacho das Pitombeiras’

Explicação: O Juká passou por três estágios, dois são hipotéticos e o terceiro é que conhecemos através das sesmarias. O Proto-Bororoide é o ancestral das línguas bororoides do Nordeste e do Oeste do Brasil, nele teriamos dois sons: p e b, quando passando para o estágio do Pré-Juká (nome que dei para o estágio que não foi documentado), estes passaram a ser apenas p, como no Pankararú, porém, diferente deste, o Juká preserva o som de b quando a palavra está ocorrendo entre duas vogais, ou intervocalicamente, isso faz a língua se dividir em dois sons desse caráter: f em quase todas as posições e b quando a palavra ocorre no meio de duas vogais. Ex.: **paro i po > *paro i bo > faro i bo



6.1) /p/ e /b/ > /b/ (intervocálico)

ex.: po ‘água, rio’ (Ucho, 2005, p. 30) > bo ‘água, rio’, porém sua forma base provavelmente era fo ‘água, rio’


7.1) /t/ > /t/

ex.: tüdüreü ‘atolado’ > tüdüroü (Tuderou) ‘nome alternativo do Rio Tauá’


/d/ > /n/

ex.: kida ‘calma, calmaria’ > kina em kinamuu ‘Serrote Quinamuiú’


/g/ > desapareceu intervocalicamente (no meio das vogais)

ex.: kigudu ‘trapos’ > koro (koro < kioro < kihoro < kigoro < kigodo < kigudu) ‘trapos’ de rösä koro ‘Olho D’Água Trapios’


/j/ (y de yes do inglês ou i de iate) > preservado ou mudado para /ts/ (ts de Tsunami, ou seja um som só, não tchisu ou tisu)


/tʃ/ (tch de tchau) > /ts/ (ts de tsunami)

ex.: por meio de simetria com /dz/


/dʒ/ (dj de Django) > /dz/ (dz de Dzubukuá)

ex.: jao ‘lugar, prioridade, antes’ > zao (zó) de koron-zao (Coronzó) ‘lugar de cheia, várzea’


/m/ > /m/ (preservado)

ex.: kida mügü ‘morada calma’ > kinamuu ‘serra de Quinamuiu’


/n/ > /n/ (preservado)

ex.: rako-je-reu ‘que está de pé’ > rouku-nee-re ‘sertão’, ‘Riacho Tabuleiros’ (Tabuleiros são elevações em torno de 20 a 50 metros)


/h/ (de outras línguas) > /h/ ou /Ø/ ?

ex.: -o-a (-wa) ‘pé, pé de’ de sque-o-a (sikö-wa) ‘Riacho dos Imbuzeiros’



/ɾ/ (som de r de Pará) > /l/ ou /ɾ/

ex 1.: paro i ‘sucupira, faveira’ > faroibo / feloibo ‘Riacho das Favelas’

ex 2.: aroia ‘roupa’ > luse (rösä) ‘roupa’


/w/ > /v/

ex.: baia, waia ‘buraco, lagoa, cova’ > waya (Vaya) de wayarire (Vayarire) ‘poço próximo do riacho Tauá’.


Ditongos


/ae/ > /ae/ (preservado)

ex.: por comparação com o ditongo /ʌe/


/ao/ > /ɔ/ (ó aberto, como em Coronzó)

ex.: jao ‘lugar, prioridade, antes’ > zao de koron-zao ‘lugar de cheia, várzea’


/ʌe/ > /ʌe/ (preservado, os portugueses escreveram como ae e ue, indicando instabilidade, provavelmente porque o som foi preservado)

ex 1.: Fue ‘coisa, gente, tempo, natureza’ de Fueriro ‘quente (fue ‘coisa’ + ri ‘quente’ + ro ‘adjetivizador’)

ex 2.: Fae ‘coisa, gente, tempo, natureza’ do Riacho Faé

 

DIALETOS JUKÁ / JOKWOYU FÖE E FATARÜBI



Os dialetos Juká são um agrupamento de línguas do Sul Cearense que compartilham do léxico base Bororoide, assim como o Pankararu e Atikum e o Kariri. A língua, de forma unificada, foi classificada como Kariri no passado, mas o Juká não participa da mesma esfera lexical que os Kariri que se autodenominam Tseho ou Nhiho (Dzubukuá, Kipeá, Sapuyá e Kamurú), estes formam um agrupamento próprio, assim como o Pankararu e Atikum, que compartilham também de vocábulos de origem Boróro, também forma uma esfera própria não-Tseho.


Usando o termo Macro-Kariri como forma de abranger essas ramificações de uma população proto-Bororoide que existiu há séculos atrás seria o mais adequado, o Juká seria uma língua própria dentro do Sertão de Inhamuns, cujo desde esta localização, através do Jaguaribe e Banabuiú também, formou um contínuo dialetal que, desde muito tempo, é denominada de Cariri Cearense ou Cariri Novo. Aqui porém, eu divido esta suposta rama ainda mais, dadas as informações lexicais que cada um teve documentado em suas respectivas áreas de habitação. O Juká tem documentação direta de seu dialeto, através do termo Fueriró (que usarei de exemplo aqui), que é análogo a um Boróro moderno boerüréü ‘quente’, indicando que o Juká transformou, tanto o /p/ quanto o /b/, irrestritamente, em /f/. Os dialetos de Faroibo e Feloibo, também no Sertão de Inhamuns, onde apenas a letra /p/ vira /f/, enquanto seu equivalente intervocálico (isto é, a letra quando está entre duas vogais), que é o /b/, foi conservado sem alteração alguma. Porfim, chegando ao Sudeste do Ceará, os dialetos tornam-se mais conservadores, havendo pouquíssimos dados, mas os dois que comprovam a conversação de /p/ são Quinimporo e Poro, o primeiro sendo ‘poço seco’ e outro apenas ‘poço’, com a letra /p/ preservada. O Juká não apresenta o desvozeamento característico do ramo Panyé (Pankararú-Proká/Kariri Novo), que torna as oclusivas sonoras /b d g/ em /mp nt nk/, pelo contrário, demonstra lenição intervocálica das oclusivas, fazendo com que /b d g/ virem /b r Ø/ (este último símbolo indica que o /g/ sumiu), isto, ao meu ponto de vista, indica que o Juká, Inhamum, e dialetos próximos, ou não são do mesmo ramo do Pankararu-Proká, ou divergiram cedo dele, formando sua própria ramificação, mas ainda tendo alguma relação mais ou menos próxima daquele ramo.


Com isso concluo que a nomenclatura de ‘Kariri’, para o Juká, só aplicaria-se em sua relação macro-linguística com o distante parente Kariri Tseho/Kariri Paraibano/Kariri Velho. O termo que recomendo doravante é de Inhamum ou Anhamum (Inyamun ou Anyamun na língua), por representar um ramo Bororoide Nordestino próprio. Assim, a classificação linguística, ao presente momento, é:


Proto-Bororoide


→ Ramo Ocidental

→ Boróro Oriental/Orarimugudoge

→ Boróro Ocidental/Boróro da Campanha

→ Umutina

→ Línguas Otuke (Otuke, Kuruminaka, Kovareka)


→ Ramo Oriental

→ Kariri Tseho/Kariri Paraibano/Kariri Velho (influxo do Kaliña)

→ Dzubukuá

→ Kipeá

→ Sapuyá

→ Kamurú

→ Payayá

→ Mauriti/Moriti


→ Panye/Kariri Novo (Possível influxo comum do Apalaí)

→ Pankararú

→ Makarú

→ Jeritakó/Jeripankó

→ Pankaré

→ Kakalankó/Kalangó

→ Karuazu

→ Atikum/Proká

→ Pipipã

→ Kambiwá

→ Jaikó/Jeikó

→ Jaikó/Jeikó


→ Inhamum/Anhamum (posição na família é possivelmente independente)

→ Inhamum

→ Juká/Jokwoyu



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